Solidão
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Abraça-me uma solidão rara, uma solidão que à semelhança de uma sombra me persegue sem se deixar agarrar. É linear de fel o gosto que lhe tomo. Abraça-me contínuamente no vão desejo de me estancar as feridas.
Calculo um abismo de negrume para dar o meu derradeiro salto. Fugir à viúva alegre do meu desconsolo, essa solidão sorrateira que se ergue rochedo sobre a minha alma prostrada. Lanço-me no vazio. No infinito procuro largar as asas moles que me pendem do dorso espinal. Nada ecoa deste acto, estou mais uma vez entregue à minha essencia visceral.
No fundo do vazio deparo-me com a imagem repetida, latente no meu cérebro ainda vivo. Lembro-me de mim no espelho que mirei. Na última hora do último dia, estava só. Tirando a mão ossuda encaixada no meu ombro... Essa solidão amiga que nunca me abandonou.
"Every living creature on earth dies alone"